O fim da escala 6×1, promulgado pelo Congresso na sexta-feira (16), virou um dos temas centrais da reta final da eleição presidencial — e expôs uma sequência de mudanças de posição do candidato do PL, o senador Flávio Bolsonaro (RJ). Em cinco meses, ele passou de crítico da proposta a voto favorável no plenário do Senado, enquanto aliados, segundo reportagem do Broadcast, do Grupo Estado, sinalizavam a empresários que o tema poderia ser revisto em um eventual governo.
Maio: “inoportuna e eleitoreira”
Cerca de uma semana antes da aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) na Câmara, em maio, Flávio classificou a discussão como inoportuna e eleitoreira e criticou o fato de o projeto ser apresentado em ano de eleição, conforme levantamento do jornal O Povo.
Agosto: “liberdade” para escolher a jornada
Em entrevista à TV Record, em agosto, o senador evitou dizer se votaria a favor da PEC no Senado e defendeu, em vez disso, a liberdade para o trabalhador escolher a própria jornada. No período, o PL passou a discutir uma proposta alternativa do senador Rogério Marinho (PL-RN), que cria um regime flexível baseado em remuneração por hora trabalhada.
Outubro: de “oportunismo” ao voto favorável em uma semana
Logo após o primeiro turno, em 6 de outubro, Flávio voltou a atacar a medida. Segundo a Folhapress, ao sair de uma reunião com aliados na sede da campanha, disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não tinha feito a mudança em quatro anos de governo e que sua própria proposta era “infinitamente melhor”. No dia seguinte, segundo O Povo, afirmou que Lula estava pensando no poder, e não no trabalhador.
Seis dias depois, na terça-feira (13), o discurso mudou. Em entrevista coletiva em São Paulo, registrada pelo Estadão Conteúdo, o senador anunciou que votaria a favor da PEC, disse que a maioria dos trabalhadores quer o fim da escala e afirmou que a maior parte da bancada do PL deveria seguir seu voto. Na noite de quarta (14), o Senado aprovou o texto por 75 votos a 1, com voto favorável de Flávio; o único contrário foi o do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
O recado aos empresários
Na quinta-feira (15), o Broadcast informou que aliados e integrantes da campanha de Flávio sinalizaram a lideranças empresariais, a pedido do próprio senador, que ele apoiaria uma revisão do fim da escala 6×1 se eleito. Um representante de entidade empresarial disse à reportagem que a campanha garantiu que iria “rever tudo na 6×1”, sem detalhar como. Ainda segundo o Broadcast, empresários criticaram, em grupos reservados, a mudança de posição do candidato. Publicamente, Flávio não mencionou revisão.
A versão de Flávio
Na entrevista à TV Globo exibida na sexta-feira (16), Flávio justificou a mudança dizendo que, ao percorrer o país durante a campanha, percebeu que a maioria dos trabalhadores era favorável ao fim da escala e decidiu acompanhar essa maioria. Afirmou também que não tentará reverter a emenda promulgada. Na mesma entrevista, comprometeu-se a cumprir apenas um mandato: “Eu estou aqui me comprometendo: eu só quero um mandato para consertar o nosso país de verdade”.
A campanha de Lula tem usado as idas e vindas do adversário na propaganda e nos atos da reta final. O tema deve voltar à tona no debate da Band, neste domingo (18), o primeiro confronto direto entre os dois candidatos no segundo turno.

